Notícias & Eventos

Fique a par de todos os eventos e notícias da APFQ

Acesso imediato às terapias inovadoras (Kaftrio®), para pacientes portugueses com Fibrose Quística

CD8A43A2-B287-4411-A286-6DBACF5387F7
Exa Sra Presidente
Comissão Parlamentar da Saúde da Assembleia da República

 

A Fibrose Quística (FQ) é a doença hereditária autossómica recessiva mais frequente nos caucasianos, ocorrendo na Europa em cerca de 1/ 2500 nascimentos vivos.Em Portugal a incidência estimada é de 1/7000 nascimentos vivos.
É uma doença monogénica, localizando-se a alteração genética no braço longo do cromossoma 7, locus q31, causada por mutações do gene regulador da condutância transmembranar da fibrose quística (CFTR), estando descritas até ao momento mais de 2000 mutações, sendo a mutação F508 a mais frequente. Esta alteração ocasiona disfunção da proteína CFTR da membrana apical que regula o transporte de cloro e sódio nas células epiteliais secretoras, levando a concentrações anormais de iões de ambos os lados das membranas apicais. O resultado é a desidratação das secreções e o aumento da sua viscosidade, favorecendo a obstrução dos canais das glândulas exócrinas.

As manifestações da doença ocorrem em graus variados no pâncreas, pulmões, fígado e intestino. As consequências clínicas incluem uma doença multisistémica caracterizada por doença pulmonar progressiva, disfunção pancreática, doença hepática que pode progredir para cirrose, problemas de motilidade intestinal e electrólitos elevados no suor. Apesar das manifestações clínicas ocorrerem em diversos órgãos, as alterações pulmonares são responsáveis por 90% da morbilidade e mortalidade na FQ. O início do comprometimento pulmonar é variável, surgindo semanas, meses ou anos após o nascimento. A doença pulmonar evolui frequentemente para insuficiência respiratória.

A FQ é provavelmente a doença crónica em que a sobrevivência e a qualidade de vida melhoraram mais nos últimos 40 anos, passando a esperança média de vida, de 10 anos em 1960, para 38 anos em 2010, estimando-se que uma criança que nasce hoje com FQ tem uma hipótese superior a 80% de atingir os 40 anos de idade. Esta melhoria no prognóstico e na qualidade de vida, deve- se a um diagnóstico mais precoce para o qual muito tem contribuído o rastreio neonatal, melhor conhecimento da doença e o tratamento precoce. Um estudo publicado na revista The Lancet divulga a enorme disparidade na esperança de vida dos doentes com Fibrose Quística nas diversas regiões Europeias, independentemente de tamanho demográfico e frequência genética. Isto explica-se, porque a maioria das crianças nascidos com esta patologia em alguns países da União Europeia, têm uma maior probabilidade de virem a apresentar uma forma mais grave por diagnóstico tardio e menor acesso a assistência médica e medicamentosa apropriada.

Os tratamentos atualmente disponíveis para a FQ consomem inúmeros recursos de saúde e apenas permitem a atenuação temporária de alguns dos sintomas. Assim, a qualidade de vida destes pacientes, a sua esperança média de vida e a sua participação na sociedade de forma ativa está severamente comprometida.

Em Portugal existem cerca de 400 pessoas com FQ que se encontram numa situação particularmente desvantajosa, uma vez que este país é um dos últimos da União Europeia que não têm acesso generalizado a terapias inovadoras mais eficazes. Lamentavelmente, o processo de avaliação para financiamento dos primeiros medicamentos inovadores (moduladores da CFTR) tem-se arrastado em Portugal desde 2016 e ainda não está concluído.

Em 2019 surgiu o medicamento Kaftrio®, que consiste numa terapia tripla que tem resultados revolucionários para a maioria das pessoas com FQ. O Kaftrio® demonstrou melhorar significativamente o prognóstico da FQ, diminuindo as exacerbações pulmonares, melhorando mesmo a sua função, o recurso a internamentos hospitalares e qualidade de vida dos pacientes. Devido à sua eficácia, o Kaftrio® foi aprovado em tempo recorde pelas entidades competentes Food and Drug Administration e European Medicines Agency.

No entanto, em Portugal, nenhum dos pacientes que são atualmente elegíveis para a terapêutica com o Kaftrio® teve ainda acesso à mesma. Dada a sua eficácia, é essencial que este medicamento seja celeremente disponibilizado. O tempo é determinante na FQ. Quantos transplantes podem ser atrasados ou evitados? Quantos óbitos? Quantas crianças, adolescentes e adultos podem evitar a deterioração clínica? Todo o tempo de espera burocrático que tem decorrido é sinónimo de perda progressiva e irreversível da capacidade respiratória.

Face ao exposto, a Associação Portuguesa de Fibrose Quística (APFQ) e a Associação Nacional de Fibrose Quística (ANFQ), representativas dos doentes com FQ, solicitam uma audiência com a Comissão de Saúde da Assembleia da República, para expor a situação atual dos doentes com FQ e solicitar à Assembleia da República que recomende ao governo a adoção das medidas necessárias, incluindo eventuais procedimentos excecionais, conducentes à célere disponibilização do fármaco Kaftrio® a todos os pacientes elegíveis com FQ em Portugal.

Manuel Herculano Rocha Presidente da APFQ
Paulo Sousa Martins Presidente da ANFQ

Share this post